O Escritor Fantasma


conto

Eu também sou filha da senhora

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As cartas do pai haviam começado a chegar sem aviso, mas logo ficou clara a regularidade. A primeira, Janayna recebera em uma terça-feira mormacenta de agosto e, desconhecendo o remetente, a largara na mesa do café, esquecendo-a por alguns dias. A segunda chegara na terça-feira seguinte, Janayna a deixara ao lado da geladeira, entre uma fatia de torrada e o copo de requeijão. Quando a terceira chegara, Janayna estava arrumando a casa, e as três cartas se encontraram em sua mão indo em direção à lata de lixo junto com restos de papéis de enrolar baguete, uma tampa de caneta sem caneta correspondente e um caderno molhado de café. Janayna sempre batia nas xícaras de café com a tipóia. Há anos usava-a para prender o braço esquerdo e nem usava o braço mais para nada. Ainda assim, quando se enervava, o braço preso batia no que estivesse por perto, como se quisesse sair voando sozinho ou levá-la dali.

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O Velho dos Sapatos Vermelhos

Nenhuma história é uma história só.

— Eu gosto de igrejas, especialmente quando estão vazias. As pessoas só estragam essas coisas.

Tentei ignorar que o velho tinha cheiro de asfalto.

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