O Escritor Fantasma


Sobre “O Vilarejo”, de Raphael Montes, sete demônios e a culpa do outro


Neste exercício de resenha, meu objetivo é elucidar as referências possíveis e prováveis que eu consiga enxergar em uma primeira leitura. A ideia é ajudar os leitores a construir uma visão maior dos sentidos do texto. Algo que vá além do assunto ou da temática superficial do livro.

Tentei encontrar substância nos livros da tal nova literatura fantástica brasileira. Selecionei alguns livros dos quais posso falar mais do que a sinopse. Em alguns casos, foi difícil encontrar algo mais do que uma sinopse. Hoje apresento: O Vilarejo, de Raphael Montes.



Neste exercício de resenha, meu objetivo é elucidar as referências possíveis e prováveis que eu consiga enxergar em uma primeira leitura. A ideia é ajudar os leitores a construir uma visão maior dos sentidos do texto. Algo que vá além do assunto ou da temática superficial do livro.

Tentei encontrar substância nos livros da tal nova literatura fantástica brasileira. Selecionei alguns livros dos quais posso falar mais do que a sinopse. Em alguns casos, foi difícil encontrar algo mais do que uma sinopse. Hoje apresento: O Vilarejo, de Raphael Montes.

Admito que eu já abri o livro com um pé atrás. Adiantando a referência, pensei em colocá-lo na categoria "Livros Para Outros Usos Que Não a Leitura, os Livros Já Lidos Sem Que Seja Necessário Abri-los, pertencentes que são à categoria dos Livros Já Lidos Antes Mesmo De Terem Sido Escritos", porque, em se tratando de fantasia nacional eu aprendi "Você já aprendeu que o melhor que se pode esperar é evitar o pior."

O leitor invariavelmente lê demais nos livros de que se ocupa. Eu obviamente leio demais nos livros de que me ocupo. O Vilarejo convida a este excesso de interpretação, porque referencia um livro que é uma verdadeira aula de literatura — tanto para leitores quanto para escritores. Por isso, escolhi este livro de Raphael Montes para lermos juntos.

A referência a que me refiro passa pelo nome Uzzi-Tuzii. No texto de Raphael Montes, Uzzi-Tuzii é um tradutor citado en passant como parte da frame story deste romance fix-up.

Os manuscritos de Elfrida Pimminstoffer vinham numa tinta velha e desbotada, com uma caligrafia feminina hesitante, falha, que ganhava firmeza ao longo das páginas. As folhas estavam malconservadas e o texto havia sido escrito em uma língua estrangeira que, a princípio, me pareceu russo ou polonês. (Prefácio)



Ok. As palavras estranhas estão aí para isso mesmo — causar estranhamento. “En passant” é “de passagem”, rapidamente, sem muita pretenção. “Frame story” é um tipo de história que serve de moldura para outra. Quer dizer que o autor inventa uma justificativa para reunir narrativas que, de outra maneira, não teriam quaisquer relações. No caso do livro de Raphael Montes, há uma história sobre uma possível tradução de textos há muito perdidos. A história da tradução é a “moldura”. Os textos traduzidos seriam os contos “emoldurados” e apresentados nos capítulos do livro.

Mas Uzzi-Tuzii não é um nome arbitrário. É uma personagem central para o livro de Ítalo Calvino Se um viajante numa noite de inverno. No livro de Calvino, Uzzi-Tuzii é um dos únicos tradutores da linguagem cimeriana. Aparece como uma piada particular sobre professores universitários. Ele trabalha em “um departamento morto de uma literatura morta escrita numa língua morta”.

No livro de Raphael Montes, Uzzi-Tuzii perde o caráter anedótico e cumpre o papel de um aviso sobre o que vem adiante na história. O Uzzi-Tuzii de Raphael Montes responde que os textos — convenientemente escritos em cimeriano e que se tornariam os capítulos do livro — não deveriam ser traduzido. Não há explicações, há apenas anúncio de medo.

Essa brevidade na apresentação de uma personagem não é exclusiva para Uzzi-Tuzii. A narrativa de Raphael Montes se aproveita bem de construções clássicas do gênero (estou tentando não escrever “clichês”), para trabalhar personagens e situações bem conhecidas do público, ao mesmo tempo em que foca na atmosfera para não cansar o leitor. Nisso, faz um ótimo trabalho.

Estranhamente, se voltarmos ao texto de Calvino — aquele sobre Uzzi-Tuzii e o texto em cimeriano — há uma dica sobre este processo. Após falar sobre uma personagem com uma espátula na mão, o narrador de Calvino argumenta:

[…] de modo que toda personagem receba uma primeira definição segundo seu gesto ou atributo, ou melhor, é sobre isso que se deseja obter mais informações, como se a espátula de manteiga já determinasse o caráter e o destino de quem no primeiro capítulo manipula um utensílio desses, e como se, a cada vez que a personagem reaparecesse no curso do romance, você, Leitor, se preparasse para exclamar: “Ah, é aquela da espátula de manteiga!” (Se um viajante numa noite de inverno)



No texto de Raphael Montes, vemos essa habilidade na criação de personagens na jovem com a mancha vermelha no rosto, senhora que recebe visitantes com uma faca na mão e, especialmente, na velha cega com um saco na mão. Personagens essas se repetem pelos diferentes contos e precisam ser reconhecidas e compreendidas rapidamente. E eu não poderia dizer melhor do que o próprio Calvino:

Você leu umas trinta páginas e já começa a se apaixonar pela história. Em certa altura, observa: “Mas esta frase, parece que a conheço. Creio que li todo este trecho.” É verdade: há motivos que retornam, o texto é tecido por este vaivém destinado a exprimir a imprecisão do tempo. (Se um viajante numa noite de inverno)



Calvino poderia estar falando sobre O Vilarejo e seus capítulos de cronologia embaralhada. Ou poderia ser tão genérico que poderia abranger toda literatura de horror — ou toda Literatura, afinal, é Calvino. Mas vale notar o conceito central: são situações familiares ao leitor. Nós todos já lemos sobre estas personagens antes. Não só em um capítulo anterior, mas em um livro anterior escrito por outro autor. As histórias que Raphael Montes narra são essas mesmas, nossas velhas conhecidas. Não é necessário esforço para compreendê-las, sua intenção é entreter.

O Livro



O Vilarejo, de Raphael Montes, publicado em 2015, menos de 20.000 palavras (ou 93 páginas na versão impressa). Foi muito bem ilustrado por Marcelo Damm. Dada a narrativa direta, sem muitas descrições, as imagens funcionam bem para ambientar a ação.

O narrador inicial se diz tradutor de textos em cimeriano, língua antiga quase perdida. Não sabemos quem escreveu as histórias “traduzidas”. Na história, tal argumento dá o ar de mistério da trama. Algo muito ruim aconteceu e o registro é obscuro e atemporal.

Não temos muitas informações sobre o que seria a língua cimeriana. Nem em O Vilarejo, nem em Se um viajante numa noite de inverno. A dica sobre a língua usada pelas personagens aparece na terceira imagem do capítulo Lúcifer. Marcelo Damm escolheu grafar “Café” com o que parece ser um alfabeto grego, com Koppa e Phi. Mas não sabemos se cimeriano seria escrito no alfabeto grego. Na verdade, Montes indica no prefácio que os manuscritos se parecem com russo ou polonês. Supondo que não estejam em alfabeto latino, o Phi se assemelha muito ao Ef do cirílico. Por outro lado, pelas explicações de Ítalo Calvino e de Raphael Montes, que a região em que se passa O Vilarejo e a região da Antiga Grécia estão de certo modo conectados.

Estrutura


Além da “frame story”, história que emoldura a história principal e que ocupa o prefácio e posfácio do livro, os demais capítulos tratam de acontecimentos trágicos que se passaram em um vilarejo sem nome.

São sete capítulos, apresentados como não tendo ordem específica, mas ordenados para que se mantenha suspense sobre os eventos causadores da história. Cada um com um nome de demônio segundo a classificação de demonologia publicada por Peter Binsfeld em 1589.

Belzebu para a gula; Leviathan para a inveja, Lúcifer para a soberba, Asmodeus para a luxúria, Belphegor para a preguiça, Mammon para a ganância e Satan para a ira. São referências claras aos sete pecados capitais.

descobri que Binsfeld era um padre, teólogo e demonologista que viveu em Trier, na Alemanha, no século XVI. O legado mais famoso do padre Binsfeld é a classificação dos demônios, escrita em 1589. (Prefácio)

Interessante notar que, contrariando a lógica óbvia da narrativa, o texto mais recente (prefácio e posfácio) são narrados no passado, enquanto os sete capítulos que narram eventos ocorridos “muito tempo atrás” estão no presente. Boas pecualiaridades para a leitura.

Conflito Principal



O conflito principal gira em torno da escassez de alimento e do isolamento de um povoado sem nome. Os moradores desesperam-se de forma gradual, o que é mais próprio das histórias de horror. Não há um ponto em que todo o medo exploda. São ações individuais que se encadeiam para piorar cada vez mais a situação.
Arrisco colocar a senhora Helga como personagem principal. Não tanto pelas suas ações, mas por ser testemunha dos acontecimentos. A personagem é apresentada logo no começo como alguém que tem algo a esconder:

Helga: usa um vestido pesado de cores escuras, uma manta grossa envolta no pescoço esquelético e traz na mão direita uma pesada sacola de pano. A mão esquerda se esconde no bolso do vestido. (Belzebu)



Alguns parágrafos adiante:

Felika olha de novo para o braço esquerdo da sra. Helga e se arrepia. Sem dúvida, a velha cega esconde algo. Um revólver ou até mesmo uma faca. (Belzebu)



No último capítulo, a história nos convida a ignorar um único culpado. Justifica que todas as pessoas do vilarejo são más. Logo, todas merecem o fim trágico que tiveram.

Conflito Secundário



O mal em si fica para o plano secundário. Não que não esteja presente em todos os contos, está lá. Mas é um mal particular a cada narrativa. Anatole personifica o encontro com esse mal, ou melhor essa desesperança, esse desespero causado pela fome. Ao sair do vilarejo em busca de alimento, o que encontra é um dos demônios disfarçado. O demônio lhe envia de volta para o vilarejo e lá Anatole descobre o mal. Recorrendo de novo a Calvino, pensemos sobre o isolamento:

Inútil dizer-me que não existem cidades de província, que elas talvez nunca tenham existido, que todos os lugares se comunicam uns com os outros instantaneamente, que a ideia de isolamento só pode ser experimentado durante o trajeto de um lugar a outro. (Se um viajante numa noite de inverno)



É no isolamento que Anatole — e as demais personagens — perdem a noção do mal que estão fazendo. Mas no reflexo da imagem de ser humano apresentada no texto, as personagens enxergam nas outras apenas a si mesmas. Felika enxerga algo perigoso escondido em Helga, apenas porque ela mesma tem algo a esconder. E vê seus filhos bem alimentados, porque ela está bem alimentada. Helga vê mal em todos menos em si mesma. Vonda joga a culpa na irmã tão perfeitamente que ela própria acredita no que diz a carta forjada por ela mesma.

A imagem final do livro é levemente perturbadora. Não achei uma descrição mais certa. O comentário geral sobre ela é algo entre surpresa e um tipo de medo ou aversão. Mérito do ilustrador. Os olhos estão quase inexpressivos, olham direto para o leitor. No excesso de detalhes na imagem, há quase uma textura palpável nas rugas.