O Escritor Fantasma


Eu também sou filha da senhora

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As cartas do pai haviam começado a chegar sem aviso, mas logo ficou clara a regularidade. A primeira, Janayna recebera em uma terça-feira mormacenta de agosto e, desconhecendo o remetente, a largara na mesa do café, esquecendo-a por alguns dias. A segunda chegara na terça-feira seguinte, Janayna a deixara ao lado da geladeira, entre uma fatia de torrada e o copo de requeijão. Quando a terceira chegara, Janayna estava arrumando a casa, e as três cartas se encontraram em sua mão indo em direção à lata de lixo junto com restos de papéis de enrolar baguete, uma tampa de caneta sem caneta correspondente e um caderno molhado de café. Janayna sempre batia nas xícaras de café com a tipóia. Há anos usava-a para prender o braço esquerdo e nem usava o braço mais para nada. Ainda assim, quando se enervava, o braço preso batia no que estivesse por perto, como se quisesse sair voando sozinho ou levá-la dali.

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Participação no "Caixa lê novos autores"

Em 23 de outubro de 2020, participação no canal Caixa de História.



No YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=UYSvf7XwpSA

No Feed do Podcast: https://pca.st/HMlG

No Twitter: @caixa_historias

Acompanhe o podcast "Caixa de História" no B9.

Esqueçam a Jornada do Herói

Campbell estudava mitos antigos. A proposta da Jornada do Herói é ser capaz de reconstruir as histórias de mitos solares a partir de fragmentos separados por centenas de anos. Quer dizer, Campbell supunha que a história completa tinha todas as 17 etapas. Recolhia o material sobre um determinado deus de um determinado povo e montava o quebra-cabeça para recompor essa Jornada do Herói.

Isso significa que

  1. a Jornada do Herói não é o único formato de mito possível;
  2. a Jornada do Herói, quando funciona, funciona para mitos solares;
  3. a Jornada do Herói pode nem mesmo ser a forma correta de se reconstruir um dado mito.

E, mais importante,

  1. a Jornada do Herói não prevê alternativas.

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Narrativa em jogos digitais - O que é e para que serve?


Resumo do resumo: Para quem não sabe o que é narrativa ou não estuda seu funcionamento em jogos digitais, basta dizer que “uma boa narrativa trata de dar boas dicas aos jogadores sobre o comportamento esperado deles a cada momento do jogo”. A partir da narrativa, o jogador pode deduzir qual estratégia deve seguir e, mais importante, como o ambiente e os demais jogadores irão responder a essa sua estratégia.

Mas o que é narrativa, afinal?

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Sobre “O Vilarejo”, de Raphael Montes, sete demônios e a culpa do outro


Neste exercício de resenha, meu objetivo é elucidar as referências possíveis e prováveis que eu consiga enxergar em uma primeira leitura. A ideia é ajudar os leitores a construir uma visão maior dos sentidos do texto. Algo que vá além do assunto ou da temática superficial do livro.

Tentei encontrar substância nos livros da tal nova literatura fantástica brasileira. Selecionei alguns livros dos quais posso falar mais do que a sinopse. Em alguns casos, foi difícil encontrar algo mais do que uma sinopse. Hoje apresento: O Vilarejo, de Raphael Montes.

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